quinta-feira, 19 de junho de 2008

Pais sem Filhos X Filhos sem Pais

Muitos passam pelo drama de não poder ter filhos biológicos. Destes uma fração toma uma decisão muito importante, fundamentada na emoção, que irá mudar a sua maneira de ver o mundo e a vida. Escolhem o caminho da Adoção.

Iniciamos nossa reflexão sobre as centenas de casais que se habilitam para adoção nas diversas comarcas espalhadas pelo nosso país. Casais que já passaram, na maioria dos casos, pelas infindáveis angústias de saber da impossibilidade de ter filhos naturais. Caminhos muitas vezes demorado e tortuoso. Casais que a duras penas tomaram a decisão de adotar uma criança, enfim, um filho. Incentivados por programas sociais, por pressões sociais que falam das inúmeras crianças abandonadas existentes na nossa sociedade. Incentivados por opiniões de familiares, opiniões de médicos e por tantas outras fontes, de incentivo.

Pois bem. Tomada esta grandiosa decisão, se deparam com uma situação inusitada. Iniciam um processo de habilitação na valorosa justiça estadual, que bem que poderia ser mais célere, mas que com uma certa dose de paciência e perseverança conseguem chegar ao final derradeiro de estar habilitado para a tão esperada adoção. Final?

Descobre neste momento que está apenas no início de uma jornada que irá demorar muito ainda. Frustra-se quando um servidor lhe informa que agora que está habilitado, o casal, “vá para casa e esqueça”. Esquecer? Como?

Foi motivo de tão grandes reflexões, expectativas, sonhos. Tudo frustrado? Ir para casa e esquecer? É isso que cabe à estes pais sem filhos? Sim, pais sem filhos, pois a paternidade e a maternidade estão ali, latentes, adormecidas, aguardando o momento mágico de manifestar todo o seu amor por uma criança que será acolhida como filho, verdadeiro, de coração, da alma.

Uma jornada que se estende por quantos anos? Um, dois, três, ou muito mais. Porquê? Se existem tantas crianças clamando por carinho e afeto. Argumentam os “especialistas” que a “culpa” seria dos próprios pretendentes à adoção, pois desejam crianças do sexo feminino, recém nascidas, e da cor branca, ou seja, raridade entre as crianças aptas para adoção.

Bem, agora adentramos em um segundo aspecto desta temática. Crianças aptas para adoção. Quais são, de onde vêm e onde estão estas crianças?

Crianças fruto do abandono, da pobreza, da miséria. Mas também do alcoolismo, da violência familiar e das drogas. Os pais estão envolvidos nestas mazelas. As crianças são vítimas também do descuido, da falta de carinho e de afeto. Estão nos abrigos, nas creches, nos lares X, Y, Z. Naturalmente vêm das comunidades carentes de nossa sociedade. Mas com um detalhe, nem todas estas crianças estão aptas para adoção.

É preciso uma longa jornada para esta criança estar nesta condição. Mesmo sendo abandonada é necessário saber, com absoluta certeza que a mãe que teve coragem de abandoná-la tem realmente certeza disto. Que os pais que tiveram coragem de bater nesta criança, a ponto dela ser abrigada para sua segurança física, não sendo uma mera palmada, mas atos repetidos e reiterados de violência familiar, não irão se redimir de seus pecados, transformando-se em exemplos de pais amáveis de que elas necessitam. É preciso dar muitas “oportunidades” para estes pais, que não tem condições de ser pais, por questões diversas, mostrarem que merecem tal condição, e terem sua prole de volta ao seio familiar. Álcool e drogas estão envolvidos nestas calamidades que desestruturam a família. Tentativas e novas tentativas, tratamentos para os pais. Grupos de Apoio. Psicólogos, terapias. Tudo com o desejo de recuperar estes pais. Processos judiciais nascem e demoram a morrer. Quando finalmente se chega à conclusão de que estes pais não tem realmente condições de exercer a sagrada missão da paternidade e da maternidade, e perdem o Poder Familiar, muitas vezes, a criança ainda não estará apta para adoção. Surgem medidas paliativas tentando dar a guarda para uma avó ou quem sabe uma tia, que na maioria dos casos sofre dos mesmos problemas enfrentados por aqueles pais que perderam o Poder Familiar. Tudo para preservar a figura da família. Alguns aceitam o “encargo”. Outros não. E finalmente a criança estará apta para adoção, quem sabe encaminhada para uma família que acolha esta criança, para um casal que se habilitou e aguardou pacientemente durante alguns anos a oportunidade de ter um filho. Mas ela corre um risco enorme, de não encontrar uma família. Pois o processo para chegar à conclusão de que ela está apta para adoção demorou tanto, que ela já não se enquadra mais nas características desejadas pelos pretendentes.

Abrigo. Lar transitório. Esta seria a função de um abrigo. De ser um Lar provisório. No entanto o que se observa é que este provisório estende-se por mais de um ano, dois ou três anos. Existem crianças que já completaram mais de 10 anos vivendo em abrigos. Claro, convém lembrar que destas, muitas ainda não estão aptas para adoção.

São crianças que chegam recém nascidas nos abrigos. Muitas abandonadas. Mas o processo que irá dizer se ela está apta para adoção ou não poderá fazer com que ela festeje o primeiro aniversário dentro do abrigo.

A fase mais importante da vida do ser humano ela viveu sem nenhum referencial familiar. Sem referência paterna. E pior, sem referencia materna. Viveu sem carinho e sem afeto. Claro, recebeu a atenção abnegada das funcionárias que cuidam destas crianças, das(os) voluntários, mas longe de se comparar à uma família, no sentido emocional da palavra.

O famoso Dr. D.W.Winnicott (1896-1971), pediatra e psicanalista inglês já nos ensinou que a possibilidade de sentir-se pertencente à segurança de um lar é condição fundamental para o saudável desenvolvimento da personalidade de um indivíduo. “A unidade familiar possibilita uma segurança indispensável à criança pequena. A ausência dessa segurança terá efeitos sobre o desenvolvimento emocional e acarretará danos à personalidade e ao caráter”.

Ele ainda discorreu que a vida institucional, por suas características de rotinização, massificação e disciplina, ou falta dela, cria um ambiente de impessoalidade e falta de afeto, que pode prejudicar o indivíduo de várias maneiras.

Isto não significa, de maneira alguma repito, desmerecer o trabalho grandioso desenvolvido nos abrigos. Mas objetivamente esclarecer que este seria um Lar Provisório. O que é provisório? Seis meses? Um ano? Mais?

Para citar mais uma vez Winnicott, ele nos esclarece que “o provimento de coisas materiais, de alimentação entre outros são aspectos importantes para o desenvolvimento de crianças e adolescentes, porém, mesmo que sejam fornecidos em abundância, os essenciais estará faltando se os próprios pais, ou os pais adotivos, ou guardiães da criança não forem pessoas que assumam a responsabilidade pelo seu desenvolvimento.“ Quem assume esta responsabilidade?

Médicos afirmam que o período mais importante para a formação da personalidade do ser humano está no primeiro ano de vida. E muitas passam longe de uma família.

Muitas crianças nesses lares e abrigos são extremamente carentes, de afeto e atenção, muitas não sabem o que é individualidade ou seu próprio espaço, não saberão tão cedo o que é uma família, pai e mãe. Seus pais são pais de finais de semana, quando o são. Situação bem confortável. Mas não para a criança.

Porque a demora em solucionar a situação destas crianças? Que preço iremos pagar no futuro? Que preço estas crianças estão pagando?

Realmente procede a manifestação do Sr. Dalteri Jaques quando fala dos pedidos de doação. Vivemos em um país de doações quando centenas de pais poderiam acolher estas crianças com afeto, amor e carinho.

É preciso tornar este procedimento mais objeto e célere. É preciso desmistificar a Adoção e não utilizar ela como marketing, mas também como política aplicável e prática na constituição de famílias. De nada adianta a sociedade de maneira geral incentivar a adoção quando na prática ela mal consegue sobreviver.

O caro leitor já experimentou visitar um abrigo e utilizar a expressão adoção? Cuidado, existe uma fumaça de temor ao ver pessoas manifestando o desejo de adoção nestas instituições.

Ah se a adoção fosse verdadeiramente incentivada, se as instituições realmente desejassem isto.

Se este processo fosse mais objetivo, nos dois sentidos – de habilitar pretendentes à adoção e de ter crianças aptas para a mesma – não seriam necessários os atalhos e caminhos escuros e tortuosos para burlar a lei, muitas vezes incorretos, para saciar, mais que um desejo, a necessidade da paternidade e da maternidade.

Caros pretendentes à adoção, não permaneçam na posição passiva de “ir para casa e esquecer”. Quem sabe devam se unir e cobrar uma forma mais coerente e correta quanto à Adoção. Especialmente os primeiros da “fila”. Saiam à campo, ninguém poderá impedir, até que se imponha o contrário, uma visitação aos abrigos. Aliás este é um tema que em breve estarei detalhando em outro artigo.

As crianças, e não os pretendentes, agradecem. Pois pais sem filhos sofrem, mas filhos sem pais sofrem mais ainda.

Reitero, quem se responsabiliza em relação aos danos futuros às crianças? A Justiça? O Ministério Público? O Conselho Tutelar? O Executivo? O legislativo? Bem, não importa, em qualquer das opções anteriores são as crianças que sofrem as conseqüências, e não somente os pais (sem filhos).

Luciano Jacques

Fonte: http://www.soartigos.com/articles/32/1/Pais-sem-Filhos-e-Filhos-sem-Pais/Page1.html

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